Crónicas
Luís Filipe Borges
Argumentista/Comediante

Curta-Metragem com Final Feliz

19 Julho 2017

Fotografia de Luis Fiilipe Borges com uma claquette

Take I. Ilha Terceira, Açores. Apenas a RTP local disponível. Filmes de que ouvíamos falar chegavam anos depois à emissão. O espanto quando, já adulto, me apercebi de que as cenas marotas levavam um corte prévio à exibição no arquipélago.

Take II. O meu pai e a sua única pancada: tecnologia, gadgets. Após o leitor de VHS, um segundo rapidamente adquirido – mas com capacidade de gravar. No espaço de poucos meses, um videoclube privado no sótão lá de casa. Ainda hoje quando regresso à casa açoriana com o meu irmão, a primeira actividade é apurar que fitas VHS ainda resistem à voracidade do tempo.

Take III. Faculdade de Direito, 6ª feira (então dia das estreias). Aulas só de manhã. Comida miserável na cantina acompanhada dum jornal. Missão: calendarizar os 4 filmes, às vezes 5 (quando o Monumental fazia sessões às duas da manhã) que iria ver nesse dia. Único critério: jamais adquirir bilhete para uma película do Van Damme.

Take IV. As férias de volta à ilha. Passar a primeira semana basicamente trancado em casa a ver filmes alugados no “Charlot”, o clube que resistiu mais tempo e onde o dono parecia conhecer todas as obras, sempre com uma recomendação na ponta da língua. Mesmo para clientes com perguntas como: “Este filme tem mortos?”, “Tens algum filme para rir muito?”, “Quero uma coisa que a minha mulher e a minha sogra gostem”.

Take V. Já sou um jovem profissional e vivemos a primeira era dos blogs. Com um grupo de amigos criamos o Noite Americana. Ainda vive, ainda há irredutíveis.

Take VI. Realizar o sonho mais delirante da adolescência. Participar em filmes. Uma curta-metragem onde passo o tempo a correr atrás de meliantes em ruelas do Bairro Alto. Um taxista num filme de Leonel Vieira. Um inspector da PJ em “Second Life”. Uma semana de rodagem = um par de amigos para a vida.

Take VII. Ver um filme na TV generalista é hoje essencialmente impossível, um desafio de paciência, uma aposta com a memória. Os intervalos publicitários são tão fastidiosos que perdemos o fio à meada ou até nos esquecemos do que estávamos a ver. E depois o desprezo absoluto pelos créditos finais, acelerados e interrompidos. Centenas de pessoas responsáveis pela obra e respeito zero.

Take VIII. O canal Hollywood e a idade adulta. Um refúgio zen. Filmes integrais, uns após os outros. A 7ª Arte setenta vezes sete. O luxo de saber que, a qualquer momento, podemos repousar ali. Para o menino e para a menina, para o avô e para o bebé. A Sara e os seus guilty pleasures: um filme que meta medo, um filme para chorar. Eu à procura dos grandes filmes que os horários e o cansaço da vida adulta já não me deixaram ver nas salas.

O Hollywood é a versão renovada das minhas sextas-feiras de estudante universitário. Grato por isso. Desde um sofá onde habitam o escriba, o amor, o gato Haruki e a cadela Indie, as luzes baixam perante o écran que se ilumina, e sussurramos: the show must go on.

 

 

Luís Filipe Borges

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